MPF e MPMG garantem livre trânsito em estrada tradicional de comunidade quilombola em Paracatu

A Comunidade Quilombola Porto Pontal, localizada na zona rural de Paracatu (MG), teve garantido o direito de circular livremente pela estrada ancestral conhecida como Estrada do Beco. A conquista é fruto da atuação conjunta do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG) em Ação Civil Pública que resultou na celebração e homologação de dois acordos parciais na Justiça Federal: o primeiro com o proprietário rural vizinho e o segundo com o município de Paracatu, firmado em audiência em 27 de agosto de 2026.

A via, conhecida como “Estrada do Beco” ou “Estrada do Córrego Frederico”, é utilizada há mais de 60 anos pelos moradores da Comunidade Quilombola de Porto Pontal, inclusive como acesso para atividades econômicas, como a pesca, práticas religiosas e convívio social.

Após o período chuvoso de 2024, diante da deterioração das condições da estrada, a comunidade quilombola organizou um mutirão para a realização de obras emergenciais que contariam com apoio da Prefeitura de Paracatu, que chegou a fornecer manilhas. Contudo, os trabalhos foram impedidos pelo proprietário da fazenda onde se encontram um trecho da via e a ponte. O fazendeiro chegou a gradear o acesso, impedindo a circulação de veículos e pedestres. Com isso, a prefeitura não levou adiante as obras de recuperação da estrada, nem a reconstrução da ponte, deixando isolados núcleos da comunidade.

Diante do bloqueio, o MPMG ajuizou uma Ação Civil Pública na Justiça Estadual, que se declarou incompetente e enviou o processo à Justiça Federal. O MPF ratificou a ação, assumindo a titularidade do polo ativo em atuação conjunta com o MPMG. A Justiça Federal concedeu liminar determinando que o proprietário da fazenda faça as obras necessárias para reconstruir a estrada e a ponte, realize manutenções na via e não volte a destrui-la ou a impedir o trânsito.

Em abril de 2025, MPF e MPMG realizaram conjuntamente uma visita à comunidade quilombola de Porto Pontal, com o objetivo de reforçar o compromisso das instituições com a proteção dos direitos da comunidade tradicional, inclusive no que se refere à situação da estrada e da ponte. Depois disso, os órgãos ministeriais participaram de reuniões virtuais com integrantes da comunidade, assim como com o fazendeiro que fechou a estrada e, também, com a Prefeitura de Paracatu.

O procurador da República Edmundo Antonio Dias e a promotora de Justiça Thaís Trindade, que atuam em conjunto no caso, destacam que “o resultado, muito positivo para a comunidade quilombola, demonstra que a soma de esforços dos ramos do Ministério Público brasileiro multiplica as possibilidades de cumprimento das funções constitucionais das instituições. A reabertura da estrada do Beco e a reconstrução da ponte sobre o Córrego Frederico, com o reconhecimento da servidão de passagem em favor da comunidade quilombola, são um exemplo concreto da ampliação desses horizontes”.

Acordos

A solução parcial do conflito ocorreu de forma gradual, em duas etapas complementares de conciliação. A primeira, realizada extrajudicialmente em junho de 2025, envolveu o proprietário rural vizinho, que assinou com o MPF e o MPMG o termo de acordo parcial, no qual a Comunidade Quilombola Porto Pontal assinou como interveniente. Pelo ajuste, o fazendeiro reconheceu o direito de servidão de passagem, em caráter perpétuo, pela comunidade, e assumiu a obrigação de reconstituir a estrada e a ponte.

Uma vez apresentado à Justiça Federal para homologação, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) se manifestou favoravelmente à homologação do acordo. Inicialmente, a primeira instância da Justiça Federal deixou de homologar o acordo, apresentando razões de cautela e ausência de manifestação do município de Paracatu, “sem prejuízo de posterior reconsideração após a manifestação das partes e terceiros intervenientes”. Contudo, após recurso levado ao Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6) com parecer favorável do MPF, a 3ª Turma do TRF6 homologou o acordo por unanimidade, em junho de 2026.

Na segunda etapa da solução consensual alcançada, o MPF e o MPMG celebraram novo acordo, desta vez com o município de Paracatu, durante audiência realizada na Justiça Federal, no dia 27 de agosto de 2026. O ente municipal também reconheceu o direito de servidão de passagem, em caráter vitalício, dos integrantes da comunidade quilombola, e assumiu a responsabilidade de conclusão das obras de melhoria na estrada e de reconstrução da ponte sobre o Córrego Frederico, com materiais adequados e duráveis, no prazo de seis meses.

O Incra e a Fundação Cultural Palmares, que participaram da audiência, concordaram com os termos do acordo realizado com o município. O ajuste foi devidamente homologado pela Juíza Federal que conduziu a audiência.

A liderança comunitária Samuel Santos da Cunha afirmou que “é uma vitória muito grande para toda a comunidade, pois eventos, movimentações, trabalhos da comunidade, tudo passa por ali.”

Com a homologação dos dois acordos pela Justiça Federal, as obrigações relativas à reabertura, reconstrução e garantia de trânsito na estrada tradicional foram resolvidas e foi estabelecido o direito de servidão perpétua em favor da comunidade quilombola. A ação civil pública continuará em tramitação exclusivamente para o julgamento do pedido de indenização por danos morais coletivos contra os réus.

Ação Civil Pública nº 6002487-84.2024.4.06.3817

SourceMPMG


Sobre Ana Paula Oliveira
Jornalista formada em Brasília tendo a Capital Federal como principal cenário de atuação nos segmentos de revista, internet, jornalismo impresso e assessoria de imprensa. Infraero, Engenho Comunicação, Portal Fato Online e Câmara em Pauta, Revista BNC, Assessoria de Comunicação do Sesc-DF, Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Rádio Nacional da Amazônia e Jornal GuaráHOJE/Cidades são algumas das empresas nas quais teve a oportunidade de trabalhar com alguns dos renomados nomes do jornalismo no Brasil, e não perdeu nenhuma chance de aprender com esses profissionais. Na televisão, atuou na TV local de Patos de Minas em 2017, além de experiências acadêmicas.
Ana Paula Oliveira nasceu em Bonfinópolis de Minas e foi morar em Brasília aos 14 anos e retorna à cidade natal em 2018. Durante os 20 anos em que passou na capital, a bonfinopolitana não desperdiçou as chances de crescer como pessoa e também como profissional, com garra e determinação. Além disso, conquistou algo não menos fundamental na sua caminhada: amigos. Isso mesmo. Para a jornalista não ter verdadeiros amigos significa ter uma vida vazia. E, com certeza, esse é um dos seus objetivos, fazer novos amigos nessa nova jornada da vida..

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