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terça-feira, maio 21, 2024
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    Quase 200 crianças e adolescentes esperam por transplantes em Minas

    Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), do início de janeiro até o dia 21 deste mês, 59 crianças e adolescentes de até 17 anos receberam transplantes em Minas. Considerando a lista de espera para essa faixa etária no estado, o número representa menos de um terço das cirurgias essenciais para salvar a vida dos 181 jovens que ainda aguardam por um órgão ou tecido.

    Maria Alice / Crédito: Arquivo pessoal

    As doações continuam abaixo do necessário para assegurar que meninas e meninos possam continuar vivos. De 2019 a 2022, foram realizados 282 transplantes nesse grupo de idades – uma média de 70 cirurgias por ano.

    Nenhuma mãe pensa em perder seu filho na infância ou juventude. Decidir doar os órgãos de uma criança ou de um adolescente é poupar outras mães da experiência da dor da perda, enquanto essa dor é sentida. Tatiana, Valeska e Neide são mães que foram poupadas em razão dos gestos de outras que elas nunca chegaram a conhecer. Um coração e dois rins doados permitem que Maria Alice, 12 anos, Maria Eduarda, 15 anos, e Beatriz, 14 anos, tenham hoje uma vida normal.

    Maria Corajosa

    A fisioterapeuta e professora de ballet Tatiana Aparecida Figueiredo Camargos, 43 anos, é mãe da Maria Alice, 12 anos, também conhecida como “Maria Corajosa”. Com apenas seis anos, a menina foi submetida a um transplante de coração, por ter nascido com miocardiopatia restritiva (doença que causa insuficiência cardíaca).

    “Sempre fui a favor da doação de órgãos, mas não conhecia o suficiente sobre o assunto. Por isso, acredito que campanhas de conscientização são o primeiro passo para o aumento das doações”, avalia.

    Tatiana ressalta que usa sua rede social como instrumento de ajuda para o processo de esclarecimento das pessoas sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Além do universo digital, também tem o hábito de falar sobre o assunto em seu círculo de amizades, no trabalho e na família.

    Orgulho da cicatriz

    Segundo ela, Maria Alice é grata pela doação recebida, tem orgulho da sua cicatriz e entende a importância dos transplantes de órgãos e tecidos, bem como o papel da doação para mudar a realidade das pessoas que aguardam por sua vez na lista de espera.

    Tatiana fala da angústia vivida ao longo da trajetória percorrida por sua única filha até o momento da cirurgia. “É muito difícil, o chão se abre. Maria estava muito limitada: não podia correr, brincar ou se exercitar”, recorda a mãe, mais de seis anos após o transplante de sua “Maria Corajosa”, realizado em junho de 2017.

    “Quando recebi a notícia de que havia chegado a vez do transplante dela, foi uma mistura de sentimentos: alegria, medo, angústia e gratidão. Ninguém morre para salvar ninguém. Doadores são escolhidos por Deus. Não é qualquer tipo de morte e de pessoa que pode ser doadora. Se houver essa oportunidade, ajude outros a seguirem vivendo. A morte pode ser ressignificada através da doação”, completa Tatiana.

    Dezoito cirurgias

    “Estou sem palavras para relatar o que estou sentindo. Um turbilhão de emoções. Enfim, hoje, Maria Eduarda está sendo abençoada com um rim novo, uma nova vida e uma nova história. Estou aqui para agradecer a Deus, a Nossa Senhora Aparecida e aos pais da doadora que, em um momento tão difícil, resolveram salvar várias vidas”.

    Duda / Crédito: Arquivo pessoal

    Esse trecho, registrado no dia 18 de novembro de 2020, em uma postagem na rede social da dona de casa Valeska Rezende Porto, 52 anos e três filhos, revela o sentimento experimentado na data da realização do transplante de rim de sua filha Maria Eduarda, a Duda, hoje com 15 anos.

    Duda foi diagnosticada com doença renal crônica aos três meses de gestação e nasceu prematuramente aos seis meses, após uma cesariana de urgência. Até a realização do transplante de rim, ela viveu, dos dois aos 11 anos, com apenas o rim esquerdo, que tinha sua função reduzida a 30%. Foram 18 cirurgias e 11 meses de hemodiálise até o dia do relato acima.

    “Minha família se mobilizou para fazer o teste, meu marido ia ser o doador, mas estávamos no pico da pandemia e as cirurgias foram suspensas. O que mais me afetou foi o sofrimento visível da Duda; ela pesava 14 quilos e estava muito debilitada”, recorda Valeska. Em média, uma menina de 11 anos costuma pesar, aproximadamente, 35 quilos.

    Até o nascimento prematuro de sua filha, Valeska revela que nunca tinha ouvido falar sobre doação de órgãos. A necessidade futura de um transplante para Maria Eduarda a levou a pesquisar e se aprofundar no assunto. “Hoje vejo a importância da doação de órgãos. Transplante é vida! Precisamos conscientizar a todos. Jurei à minha filha que levantaríamos a bandeira da doação de órgãos. Duda fica triste por saber que o número de doadores cresce pouco”, ressalta.

    Sonho dos jogos olímpicos

    Maria Eduarda começou a praticar natação aos 3 anos e, aos 11, teve que interromper devido às sessões de hemodiálise. Após o transplante, ela recebeu autorização médica para retomar sua rotina esportiva. Seu sonho é participar dos jogos olímpicos de transplantados que serão realizados no ano que vem no Brasil e nos Estados Unidos. A jovem também quer competir no mundial marcado para 2025 na Alemanha. Para tornar possível sua participação, Valeska organizou uma “vaquinha virtual” e já captou 52% do necessário para as viagens do ano que vem.

    Atualmente, a adolescente integra a “Liga de Atletas Transplantados do Brasil”. O convite veio depois que membros da Liga assistiram a um vídeo na rede social de sua mãe. Duda iniciou no esporte por orientação da pediatra que a acompanha, que sugeriu a prática de uma atividade física. Sua escolha foi a natação e, desde então, se dedica a ela.

    Valorizar e salvar

    Beatriz / Crédito: Arquivo pessoal

    A advogada e professora Neide Duarte Rolim, 50 anos, tem dois filhos. Favorável à doação de órgãos e tecidos, sua convicção se formou a partir das campanhas para a doação de sangue. “Sempre cultivei atos de amor e doei leite materno quando fui lactante”.

    Quando sua filha Beatriz, 14 anos, recebeu o diagnóstico de insuficiência renal aos oito anos, com a indicação de transplante, ela sentiu a angústia de quem aguarda por esse tipo de cirurgia. “A situação da minha filha reforçou o fato de que precisamos uns dos outros, inclusive para salvar vidas. Quando recebemos o diagnóstico da necessidade do transplante, sofremos por ela ser tão pequena e ter que passar por isso. O sofrimento maior veio com o início da hemodiálise, que a fazia sentir muitas dores”, argumenta Neide.

    A advogada conta que a notícia da doença de sua filha mobilizou seus familiares, amigos e alunos que se ofereceram para fazer o teste de compatibilidade. “Fomos acalentados por um círculo de amor que se formou em torno de nós. Acredito que a tenra idade comove mais as pessoas”.

    Emoção e gratidão

    Os exames mostraram que Neide era compatível, mas devido a uma anemia, ela não era a melhor opção. Após o primeiro mês que Beatriz estava na lista de espera, a advogada foi informada de que havia um doador para a menina. No entanto, o rim era pequeno e a cirurgia não foi realizada.

    Dois dias após, surgiu um novo doador. “Minha filha era a segunda na fila. Enquanto aguardávamos o desfecho, ela acabou quebrando o jejum pré-cirúrgico. Me justificou, aos prantos, que estava com medo de morrer. Para nosso alívio, o rim foi para o primeiro da fila. Vinte e um dias depois, havia uma nova possibilidade de transplante. No dia seguinte, veio a confirmação e ela era a primeira da fila. A emoção sentida por mim, familiares e amigos equivale ao primeiro choro do nascimento dela. Uma mistura de emoção e gratidão”, conta Neide.

    A professora encara a doação de órgãos e tecidos como um ato de empatia e grandiosidade. Ela conta que, após o transplante da Beatriz, tem falado sobre a importância desse tipo de ação. Segundo Neide, as pessoas com quem convive têm se declarado doadoras. “Aceitar doar os órgãos de um filho, neto ou outro parente que se foi é a junção da dor de duas famílias para nascer gratidão e felicidade. Doar órgãos não salva apenas uma vida, como a da minha filha, salva várias”, finaliza.

    MG Transplantes

    A doação de órgãos e sua destinação para transplantes é coordenada, em Minas Gerais, pelo MG Transplantes, da Rede Fhemig, que é responsável pela captação e distribuição de órgãos em todo o estado, por meio da central estadual de transplantes (CET). Até o dia 26 deste mês, mais de 6,5 mil pessoas aguardavam a oportunidade de receber um órgão e poder contar suas vitórias como as três meninas.



    Sobre Ana Paula Oliveira
    Jornalista formada em Brasília tendo a Capital Federal como principal cenário de atuação nos segmentos de revista, internet, jornalismo impresso e assessoria de imprensa. Infraero, Engenho Comunicação, Portal Fato Online e Câmara em Pauta, Revista BNC, Assessoria de Comunicação do Sesc-DF, Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Rádio Nacional da Amazônia e Jornal GuaráHOJE/Cidades são algumas das empresas nas quais teve a oportunidade de trabalhar com alguns dos renomados nomes do jornalismo no Brasil, e não perdeu nenhuma chance de aprender com esses profissionais. Na televisão, atuou na TV local de Patos de Minas em 2017, além de experiências acadêmicas.
    Ana Paula Oliveira nasceu em Bonfinópolis de Minas e foi morar em Brasília aos 14 anos e retorna à cidade natal em 2018. Durante os 20 anos em que passou na capital, a bonfinopolitana não desperdiçou as chances de crescer como pessoa e também como profissional, com garra e determinação. Além disso, conquistou algo não menos fundamental na sua caminhada: amigos. Isso mesmo. Para a jornalista não ter verdadeiros amigos significa ter uma vida vazia. E, com certeza, esse é um dos seus objetivos, fazer novos amigos nessa nova jornada da vida..

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